quarta-feira, maio 08, 2013

ZEZINHO E OS FRANGOS E OS OVOS E AS GALINHAS


Houve um tempo, acreditem, em que não se compravam frangos em supermercados. Supermercados, minha senhora, mal estavam começando a existir. Isso lá pelos anos cinqüenta e sessenta do século passado. Naquela época, as coisas eram compradas nos armazéns de secos e molhados. Menos os frangos. Esses, nem nos armazéns.

Quem quisesse um franguinho assado, no almoço, tinha três opções: ganhava um frango vivo de presente, criava frangos, no galinheiro do fundo do quintal, ou comprava um frango vivo no frangueiro, o comerciante especializado, que tinha sua loja ou, então, que ia batendo de porta em porta e oferecendo os frangos que trazia nas costas, em um enorme jacá. 

Havia, ainda, a forma um tanto menos ortodoxa que consistia em furtar os frangos em algum galinheiro de quintal, à noite. Mas, o espertinho que fizesse isso arriscava-se a tomar um tiro de garrucha. E foi dessa modalidade que surgiram os famosos “ladrões de galinhas”. Mas, esta forma não consideraremos como válida.

Sempre que se adquiria um frango, ele vinha inteiro e, pasmem, vivo. E o interessado que o matasse. Lá em casa, o matador  oficial de frangos era meu pai. Pegava o bichinho com uma das mãos, pelas pernas, e, com a outra mão, torcia-lhe o pescoço. Depois, dava-lhe um banho de água fervendo e arrancava todas as penas, guardadas para encher travesseiros.

Frango normal era aquele que tinha duas pernas, com duas coxas, duas asas, um peito, uma cabeça, um... Enfim... Todas essas coisas de que a natureza dota um frango normal. Nada do que essas modas atuais apresentam à venda no supermercado: uma bandejinha com meia dúzia de coxas, outra com meia dúzia de sobrecoxas, dois peitos, etc. Alguém aí, por acaso, já viu alguma penosa de seis pernas e nada mais? E de dois peitos, sem pernas, sem asas, sem cabeça?

Enfim, era tudo assim. Bem diferente dos dias de hoje em que a grande maioria das crianças nunca viu um galo ou uma galinha. Ao contrário, as crianças de antes, todas, sabiam o que era uma galinha. Era difícil a casa que não tivesse um galinheiro no fundo do quintal. Verdade que, hoje em dia, as crianças nem ao menos sabem o que é quintal.

Em casa, como não poderia deixar de ser, também havia o galinheiro no fundo do quintal. E recolhiam-se ovos nos ninhos. Mas, isso faz muito tempo! Tanto tempo que minha memória mal consegue vislumbrar algum fato da época. Entretanto, alguma coisa ainda lembro.

Certo dia, sei lá o que eu havia aprontado, minha mãe sentenciou:

“Hoje, você vai dormir com as galinhas!”

O dia passou, meu pai chegou do escritório, jantamos, e eu sumi. Procuraram por mim pela casa toda, que era pequena, e nada. Os vizinhos entraram em polvorosa. Vocês não fazem idéia do que era a vizinhança, no italianíssimo bairro paulistano do Brás, ainda no final dos anos quarenta, quando não existia televisão. Todos gesticulando e falando alto, ao mesmo tempo, querendo chamar a polícia. Foi quando minha mãe lembrou-se: “Não é possível!”

Era possível, sim. Tanto que, quando ela chegou no fundo do quintal, no galinheiro, lá estava o Zezinho empoleirado, no meio de um bando de galinhas também empoleiradas à sua volta, todos prontos para dormir.

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Na foto de 29-08-44, no galinheiro do fundo do quintal, papai Amélio ensina Zezinho a dar milho para as galinhas.

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Pessoal, a 14ª Exposição de Orquídeas de Vinhedo/SP foi um sucesso absoluto. 1.300 plantas de colecionadores de 33 cidades de SP e MG expostas. Público visitante estimado em 10.000 pessoas. Na próxima postagem colocarei algumas fotos.

Abração a todos e até à próxima.
JF

15 comentários:

Ana Carla disse...

Que lindo texto! Gostoso feito um abraço!

Ana Carla disse...

Ah! E vc nem contou das "brigas" pelas partes do frango, na hora do almoço: uma asa é minha! Rsrsrs...

maray disse...

eu ia comprar frangos com minha avó numa chácara ao lado do que seria a marginal pinheiros, lá em cidade monções! Ela trazia a galinha viva, de cabeça pra baixo, amarrada pelas pernas e depois procedia à execução sumária do jeitinho que vc contou. E aí, por eu ter ido acompanhá-la e ser a caçulinha da família, eu ganhava a parte de que mais gostava (gosto): o coração!!
Meu irmão mais velho ficava com a moela, meu pai e o outro irmão com as coxas, minha mãe com as asas e minha avó dizia ( hoje vejo que devia ser balela de vó amorosa) que ela preferia o pescoço! A galinha tinha que dar pra nós todos, aos domingos!

Bjs

Rosamaria disse...

J.F., eu ADORO o que escreves! Tão bem, tão bem, que parece que estamos vivendo tudo direitinho como era.
Na minha casa também era assim, como não poderia deixar de ser. Na época eu tinha dois irmãos de criação, a Ercy e o Oscar, que era o maior brincalhão e que alegrou demais a nos todos. Na hora de matar uma galinha era com ele. Pegava a galinha e, em vez de firmar as pernas pra torcer o pescoço, enrolava, enrolava e soltava. Quase sempre quando ele soltava, a galinha saia correndo, o que era a maior brincadeira pra nós e um desespero pra galinha que era pega de novo e aí, sim, era abatida. O processo de depenar era o mesmo, depois queimava-se jornal para sapecar.
Aqui a gente sempre lembra de coisas boas!

Fico feliz por comentares sempre lá no Rosa147, obrigada.
Bjim pra ti e pra Nina.

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Os Incansáveis disse...

J.F. Deliciosa crônica! Lembro que na casa da minha tia, em São Miguel Paulista, tinha criação de galinhas e sua crônica me fez lembrar do cheiro das penas da galinha quando minha tia jogava a água quente para depenar. E nada se perdia: os pés e pescoço eram usados na canja. Mas confesso que não tinha e nem tenho coragem de matar o bichinho. Será que por isso me tornei vegetariana?
Denise

J.F. disse...

Oi, Ana.
Confusão. mesmo, eram nos almoços da família toda, na casa dos meus avós. Imagina uma família italiana, das antigas. Imaginou? Pois é! Muita barulheira, muita macarronada, muito Chianti Rufino, muitas coisas gostosas e, sobretudo, muitas galinhas assadas. Era tanta galinha que nem dava para brigar pelas partes de que cada um gostava. Bons tempos! Quanta saudade!
Abração.

J.F. disse...

Maray,
Acho que todas as avós eram amorosas, pois a minha, pelo menos a materna, também preferia o pescoço. Hoje é diferente. As avós continuam amorosas, mas as galinhas mudaram. Vêm em bandejinhas de supermercado, com quantas coxas, sobrecoxas e outras partes que forem necessárias, sem necessidade de disputas. Inclusive, acho que, hoje em dia, galinha não tem mais pescoço. Pelo menos não os vejo à venda no supermercado.
Abração.

J.F. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
J.F. disse...

Oi, Rosa.
Gosto muito do seu blog. Por isso eu o visito e deixo lá minhas opiniões.
Quanto às galinhas, depois que meus pais se mudaram para o sítio (1970), também aconteceram muitas brincadeiras e confusões. Hoje, desde que Nina e eu também viemos para o sítio, depois do falecimento de minha mãe e com meu pai (matador e depenador oficial das galinhas) quase chegando aos 98 anos, já não temos mais galinhas. Até que sinto falta, mas existem formas bem mais fáceis de tê-las à mesa.
Abração.

J.F. disse...

Denise,
Eu também não teria coragem de matá-las. Gosto demais dos animais. Não mato nem uma ou outra cobra que possa aparecer por aqui. No entanto, como são vendidas em partes nos supermercados, ainda não me tornei vegetariano. hehehehehehehehe
Abração.

Mimirabolante disse...

Muito bom o texto!!!
mas,venho aqui para lhe agradecer a visita e dizer que vc era meu vizinho????rssrsrsr....realmente,fico muito irritada tbm......e acabei de fazer um novo post sobre o lixo nosso de cada lazer !!!desde pequeno meus filhos já traziam o lixinho nos bolsos,hj cresceram e são exemplos de cidadãos !!!educação vem de berço !!!bjcas e até breve !!!

Mimirabolante disse...

Muito bom o texto!!!
mas,venho aqui para lhe agradecer a visita e dizer que vc era meu vizinho????rssrsrsr....realmente,fico muito irritada tbm......e acabei de fazer um novo post sobre o lixo nosso de cada lazer !!!desde pequeno meus filhos já traziam o lixinho nos bolsos,hj cresceram e são exemplos de cidadãos !!!educação vem de berço !!!bjcas e até breve !!!

Nina Maria disse...

Como sua mãe gostava de contar esta história!Ela ficava com os olhos brilhando de contentamento!Boas recordações!
Os tempos mudaram,mas existindo amor e união, o aconchego das reuniões familiares permanecem!
Somos abençoados pela família que temos!
Todo meu amor, num beijo

Mimirabolante disse...

Voce retrata bem " a minha infância ".....sou do tempo dos frangos abatidos na hora ou em casa ,pela minha avó....com td aquele cerimonial:esconde as crianças gritava a vovó( pois não podíamos ver a degola)rsrsrsr.....os ovos embalados um a um nos jornais usados....ah!!que saudades!!isso é tão bom!!!
Adorei a sua presença na minha casa e as suas colocações....
Parece que encontrei outra alma gêmea preocupada com o Planeta!!!
Obrigada....
Apareça sempre ,mil beijocas bem mimirabolantes para vc !!!!

Luciana Vannucchi de Farias disse...

Eu não me lembrava de ter visto essa sua foto com o vô, Paiê!!! Finalmente conheci o famoso galinheiro onde você foi dormir...

Beijão!!!