quinta-feira, agosto 09, 2007

A propósito de Galos e Galinhas

Gentas e gentos.

Se existe um bicho burro, mas burro mesmo, o nome dele é galinha!

Tenho trauma de galinhas. Falo sério!

Talvez isso venha da infância. Imaginem ser filho de pais vindos do interior do estado, numa época que São Paulo, apesar de grande, era uma cidade... vamos dizer assim: um tanto provinciana. Isso lá pelos idos da década de 40. Não no início, lógico, que eu ainda não havia nascido, mas já para os anos 40 finais. É óbvio que no quintal de minha casa tinha um galinheiro. Aliás, naquela época, a maioria das casas tinha um galinheiro no fundo do quintal. Não se compravam ovos no supermercado. Nem existiam supermercados, ainda era a época dos "armazéns de secos e molhados". Os ovos vinham do fundo do quintal. E, de vez em quando, meu pai ia ao galinheiro, pegava uma galinha, torcia o pescoço dela e a deixava pendurada de cabeça para baixo, terminando de estrebuchar.

Nem sei o que significa estrebuchar, mas era como deixavam a galinha. Depois que terminava o estrebuchamento, davam um banho de água fervendo na galinha e retiravam suas penas (que eram guardadas para encher travesseiros). Depois disso, a galinha acabava aparecendo na mesa, já pronta para ir para o prato.

Hoje em dia é tudo mais simples. Vai-se ao supermercado e compra-se a galinha, que agora é chamada de frango, já prontinha para a panela. Não imagino como eu faria para estrangular uma galinha, pô-la para estrebuchar, dar-lhe banho de água fervendo e, ainda por cima, arrancar-lhe todas as penas.

Um dia, isso eu não lembro, apenas conto porque é história que corre na família, eu com uns três anos de idade, aprontei alguma coisa e minha mãe ameaçou de me fazer dormir com as galinhas.

Não sei se foi o complexo de culpa ou o quê. O fato é que, lá pelas tantas, deram por falta de mim.

"Onde foi parar o Zé?"

Quando foram olhar no quintal, lá estava eu no galinheiro, me preparando para dormir com as galinhas.

O fato é que, com tudo isso, agora, galinha, ao menos para mim, é só aquela vinda do supermercado. Digo isso, mas, lá no fundo, bem que tenho a idéia, de quando for morar no sítio, reativar o galinheiro. Com poucas galinhas, lógico, mas, isso é outra história.

Quando meus pais compraram o sítio, em 1970, as galinhas, lá, eram mais comuns que tico-tico. Como elas não ficavam presas, tinha galinha por tudo quanto era lado. Galinhas comuns, galinhas caipiras, garnizés. Chego quase a imaginar que era a totalidade da fauna itatibense, de tanto que tinha galinha. E elas botavam ovos prá tudo quanto era lado, para alegria geral dos gambás e outros animais, aí incluidos, evidentemente, os empregados do sítio. E era um tal de galinha aparecer com uma ninhada de dez, doze e até mais pintos. Era um verdadeiro escândalo! O drama é que minha mãe, depois de ter passado dezenas de anos com apenas um pequeno galinheiro no quintal, agora se via como a protetora universal das galinhas soltas e liberadas. Dizia que era ótimo para acabar com bichinhos. Até podia ser, pois em qualquer lado do sítio que a gente ia tinha multidões de galinhas ciscando pelo chão.

E os galos? De monte! Começavam a cantoria às três da madrugada. Debaixo da janela do nosso quarto. É por isso, inclusive, que a Nina odeia galinhas e galos (ainda não contei para ela que eu pretendo reativar o galinheiro, hehehehehe!, se bem que em quantidades educadas.).

Uma ocasião, levamos o Rackan ao sítio.

Antes de continuar, deixem-me falar quem era o Rackan.

Rackan era um cachorro pastor alemão. Ganhei de uma aluna. O filhote tinha sido desmamado aos vinte dias e trazido de uma fazenda de Bauru para São Paulo. Chegou mirrado, carregado de carrapatos e vermes. A Nina trabalhou muito bem para que ele pudesse sobreviver e se transformar num lindo pastor alemão "capa preta". A intenção era de levá-lo para o sítio. Mas, ele foi se criando no apartamento e nós não quisemos mais ficar longe dele. Dessa forma, Rackan foi um lindo cão pastor alemão "capa preta" de apartamento.

Agora, vocês imaginem um "partorzão" entrar num carro, saido de um apartamento na 9 de Julho, aqui em São Paulo, e descer em um sítio em Itatiba. Ele nem imaginava que pudesse existir tanto espaço!

Pois foi o Rackan descer do automovel e o que aparece bem na frente dele? Um galo! Lógico que ele não sabia que aquilo era um galo. Nem sabia que existiam galos. O máximo que ele conhecia, e corria atrás, eram alguns pardais que cismavam de aterrizar no terraço do apartamento. Um "pardal" daquele tamanho? Não! Isso tinha que ser investigado. E lá foi o Rackan, em desabalada carreira, atráz do "pardalzão" colorido. Obviamente, a curiosidade, se é que podemos chamar assim, era muito mais forte que nossos chamamentos imperiosos para que voltasse. Alguns minutos depois, o Rackan apareceu com o "pardalzão" pendurado, preso em sua boca pelo pescoço, já prontinho para receber o banho de água fervente e passar pela rotina do "despenamento".

Nem preciso dizer que minha mãe ficou uma "fera". hehehehehehehe! Mas, perdoou logo. A paixão dela por animais era imensa. Inclusive por cães pastores alemães curiosos.

Naquela época, em que os caminhos do sítio não tinham todo o calçamento que têm hoje, chovia demais (até o tempo mudou e já não é mais o mesmo!). Ao redor da casa ficava um tremendo lamaçal. Quando vinha o sol, a lama secava e formava enormes torrões de terra.

Num dos lados da casa, havia um barranco com diversas jabuticabeiras e algumas outras árvores que, naquela época, ainda eram relativamente baixas. Pois era nessas jabuticabeiras e árvores que as hordas de galinhas se empoleiravam, no final da tarde, protegidas pela ramagem espessa, para passar a noite. E era nessa hora que entrava em ação o Super X, o "terror das galinhas".

Super X, que a Luciana e o Adriano juram que era eu, garanto que não me lembro ao certo, chegava sorrateiramente, escolhia um grande torrão de terra no chão, e o atirava, com muita força, bem no meio da copa de uma das árvores. O torrão batia na árvore e como quê explodia, espalhando aquele monte de terra por entre as galinhas.

Gentas e gentos. Era engraçadíssimo ver aquele bando de galinhas assustadas, apavoradas e cacarejantes sairem esvoaçando por tudo que era lado da árvore. A Lu, o Adriano e eu caíamos na gargalhada... Eu não! O Super X, que eu seria incapaz de fazer uma maldade dessas.

A reação imediata à barulheira das galinhas era o aparecimento, em cena, de Dona Amélia.

"Que foi que aconteceu?"

"Sei não! Isso, na certa, é gambá querendo pegar as galinhas na árvore.

Realmente, galinha é um bicho muito burro! Mas eu ainda vou criar umas galinhas lá no sítio (não contem para a Nina que ela é capaz de querer cortar meu barato). Só que ficarão trancafiadas no galinheiro. E, se começarem a gritar e a voar esbaforidas, que ninguém me venha com a história de gambá. Vou querer saber, direitinho, quem é que está atirando bolotões de terra nas galinhas!

JF

Um comentário:

Luciana Farias disse...

Paiê, só faltou explicar pra turma mais nova que "dormir com as galinhas" era igual a dormir cedo, HAHAHAHAHA...

Beijão!!!