quinta-feira, agosto 09, 2007

Romance de uma arara e de um ororo

Gentas e gentos.

Qual é o masculino de arara? Vocês sabem, aquele bicho voador com um empenamento todo colorido. Acho que dizer "ororo" é um tanto forçado, né mesmo? Bem, vamos supor que seja "araro". Ao menos é como definíamos o Jô.

Esta história começa ali pelo final dos anos setenta, início dos oitenta.

A casa de meus pais, no Itaim-Bibi, aqui em São Paulo, estava no meio de um enorme terreno de 1.200 metros quadrados. Meus pais, vocês estão já cansados, de saber, eram do interior. Minha mãe, sãocarlense, a terra do Zé Roberto. Meu pai era de Dourado, bem no centro do estado, mais precisamente do distrito de Itaju. - Um dia ele quis mostrar aos filhos sua cidade. Foi tanta gozação, tanta risada, que não voltou mais lá! Mas, isto é outra história. Voltemos a falar de araras.

Naquela época, o Itaim-Bibi ainda estava começando a crescer verticalmente. Ainda existiam casas com enormes quintais. O nosso, particularmente, era um enorme pomar. Tinha três jabuticabeiras, bananeiras, uma nespereira, mamoeiro. E outras coisas. Tinha até um famoso chuchuzeiro que foi "morrido" misteriosamente, como eu (me parece!) já contei aqui.

Com essa semi-floresta, era natural a vinda ao quintal de muitos pássaros.

Um dia, apareceu por lá uma enorme arara vermelha. Provavelmente fugitiva de alguma gaiola, a coitada estava em mísero estado, demonstrando muita falta de cuidados dos donos com o animal.

Ora, dizem por aí que o que cai na rede é peixe. Óbvio que não saimos pela rua perguntando quem perdera uma arara. Embora, se aparecesse alguém que provasse que era o dono do animal, certamente o levaria embora. Mas, apesar de toda a gritaria que a arara estava acostumada a fazer, ninguém apareceu. Sorte nossa! E da arara!

Bem tratada, logo ela recuperava a beleza de suas penas e a sua natural alegria. Solta no quintal, com água, comida e uma boa "cama", ia de árvore em árvore e por lá foi ficando. Considerou-se em uma nova casa.

Um dia, passados vários anos, a casa foi vendida para que fosse levantado, no local, um edifício de 17 andares. Soubemos, depois, que as três jabuticabeiras foram tiradas com o máximo cuidado e transportadas para o sítio de um dos donos da construtora, onde elas devem estar vivendo muito bem, até hoje. Quanto à arara, mudou-se lá para Itatiba, no sítio de meus pais, onde se encontra até hoje.

Existem muitas histórias engraçadas da arara, mas que deixo para contar em outra ocasião para não me alongar. Afinal, o que quero, mesmo, é contar sobre o Jô.

Entretanto, antes de falar nele, ainda devo dizer que, de vez em quando, a arara botava ovos e cismava de chocá-los. Fazia um ninho embaixo de um armário da cozinha e lá ficava. Lógico que, os ovos não sendo "galados", não nasciam ararinhas ou ararinhos. De vez em quando, minha mãe, com pena do instinto maternal da arara, colocava no meio dos ovos dela algum ovo de garnizé. Estes eclodiam. E a arara os tratava como se seus próprios filhos fossem. O pior é que esses garnizés acabavam por adquirir costumes ararísticos. Quase esqueciam que, de verdade, eram galináceos. Só não aprendiam a falar.

Foi então que meu pai resolveu atuar na criação e transformar-se em agente da natureza.

Diz a Bíblia que Deus, depois de criar o homem, disse: "Não é bom que o homem fique sozinho!". E criou a mulher. E daí, vocês sabem no que deu: namoro, casamento, filhos.

E meu pai disse: "Não é bom que a arara fique sozinha!"

Pergunta daqui, pergunta dali, conseguiu comprar um araro (vocês têm certeza que não é ororo, não é mesmo?), ao qual foi dado o carinhoso nome de Jô.

O Jô vivia empoleirado pelas árvores. Descia para comer e dormir em seu canto. Incrível era a sua capacidade de imitar as vozes das pessoas.

Meus pais, já com a idade avançando, logicamente foram incorporando hábitos próprios da velhice, tais como a ranzinzice e a teimosia. E, às vezes, discutiam entre si, cada um querendo ter mais razão que o outro. Isso, evidentemente, era um bom motivo de "gozação" de filhos e netos, pois, dalí a pouco, lá estavam os dois de mãos dadas assistindo a algum programa de televisão.

Certa manhã, alí pelas seis da madrugada, depois de já ter sido acordada às três pelos galos que vinham cantar sob a janela de nosso quarto, a Nina acorda com o barulho de uma discussão meio inteligível de meus pais.

" Amélio! Vo..." E não dava para entender o que minha mãe falava. Mas, a resposta era imediata:

"Amélia! Vo..." E também não dava para entender o que meu pai respondia.

"Começaram cedo..." pensou ela bem baixinho, para não me acordar.

Naturalmente, essas formas de acordar no meio da noite fazem com que os instintos naturais se manifestem e as pessoas sintam vontade de ir ao banheiro. A Nina, moça normal e saudável, logicamente, levantou-se para ir... "lá". Ao passar em frente ao quarto de meus pais, percebeu que os dois dormiam a sono solto, apesar de, fora da casa, a discussão continuar correndo solta. Isso merecia uma investigação cuidadosa. Pois não é que o Jô, no alto de uma árvore, ao lado da casa, era o protagonista único da discussão? O bandidinho sabia imitar a forma de falar de meu pai e de minha mãe. E lá ficava ele, no alvorecer do dia, se divertindo na representação teatral de uma "briga" dos Amélios.

Mas, voltemos ao principal, que a história já está longa: o namoro, o casamento, os ararinhos e as ararinhas tão ansiosamente aguardados.

Bem, o desfecho foi outro, bem diferente do esperado.

Nada de namoro! Nem chegavam perto um do outro.

Depois de muito pesquisar e perguntar, soubemos da verdade: as araras, quando formam um casal, ficam fiéis entre si até à morte dos dois. Mesmo que um dos dois venha a morer, o outro nunca mais buscará um companheiro. Não é bonitinho? Que coisa mais lindinha! Podia ser isso! Vai que um dos dois já fora casado, anteriormente? Não seria mesmo possível a união entre eles. Teriam, talvez, os dois sido casados em tempos anteriores? Afinal, os dois eram adultos quando chegaram ao nosso convívio. Não dava para saber. A única coisa que se sabia é que nenhum dos dois procurava aproximar-se do outro. Ignonoravam-se, mesmo.

Mas, as dúvidas sempre ficam. Pergunta daqui, pergunta dali, e, um dia, nova explicação. Eram araras de espécies diferentes. Realmente, a arara era vermelha e o Jô era azul. Mas eles têm preconceito disso? Bem, era como se se quisesse casar um cão pastor alemão com uma gata siamesa. Ou quase isso. Enfim... Vocês entenderam. Era impossível o casamento. Especies diferentes!

Agora já tínhamos duas boas razões para crer na impossibilidade de romance.

O Jô, infelizmente, depois de anos e anos de vida boêmia pelas árvores do sítio, inclusive praticando um esporte radical que ele adorava: ficar sob a chuva, tanto fazia se fosse um simples chuvisco ou uma tremenda tempestade de verão, adoeceu e morreu. Disse a veterinária que foi de pneumonia, em razão do excesso de chuvas que ele tomava. A arara, como já disse, está por lá, passeando, dando suas voltinhas nas árvores, ensaiando vôos. É uma verdadeira viuva alegre.

Mas, para terminar de falar sobre o Jô. Um dia, tivemos a terceira razão pela qual nunca daria certo o casamento entre eles. O Jô botou um ovo! O Jô não era Jô. Era Já!

Abração
JF

4 comentários:

Luciana Farias disse...

Hoje que finalmente o blogspot tem dado as caras por aqui... não é que encontrei mais histórias suas???

Que legal!!!!!!!

Continue sempre paiê, agora que você aprendeu, não suma mais daqui, POR FAVOOOOOOOOOOOR!!!

Beijocas...

Elza disse...

Olá!!
Estou passando por aqui para dar meus parabéns
pela sua indicação, ao prêmio blog 5 estrelas!
Seu blog é muito original, parabéns 2x!
rsrs..
bom final de semana.
=]

Bibi Move Scliar disse...

que texto Lindo, bem escrito e alegre.
Foi lido com enorme prazer neste domingo de manhã.

J. Andrade disse...

Se no universo dos homo sapiens sapiens houvesse metade, notem bem: metade do seu conjunto em seres como o JOSÉ FRANCISCO (escrevi o seu nome totalmente em maiusculas objetivamente pela sua grandiosidade humana), seguramente estaríamos num mundo bem melhor que este. Este HOMEM amigo do amigo, sempre demonstrou saber interagir com todas as sensibilidades, por mais antagonicas que sejam, o que faz dele um grande lider e sem margens para duvidas. É bom tê-lo como amigo e quem disso se orgulha certamente que sabe do grande privilegio da situação.
Um forte abração
J. Andrade (Porto - Portugal - Portista)